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Artigo da autoria do Dr. António Rodrigues Mourinho, publicado na revista Fórum - Terras de Mogadouro (Pág. 20 a 24) N.º1 II Série - 2006.

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Figura 2


 

Figura 3

 

Figura 4



Figura 5

 

Figura 6

 

o património cultural da povoação de Brunhoso

A povoação de Brunhoso fica dentro do território da Terra de Miranda. Até 1889 pertenceu à Arquidiocese de Braga e esteve sob a protecção e vigilância do Vicariato de Moncorvo, que por si pertencia à Arquidiocese de Braga.

Como todas as pessoas e povoações, Brunhoso possui um património cultural que não é, de modo algum, dos mais pobres do Concelho de Mogadouro.

Desde que conheci a povoação de Brunhoso, pelos anos de 1969, despertou-me a curiosidade a traça arquitectónica da Igreja Paroquial mais do que qualquer outro dos monumentos que fazem parte do património da povoação.

Perguntei, mais tarde, ao saudoso Pe António Pina se sabia alguma coisa sobre o templo e respondeu-me que a tradição oral dizia que a igreja primitiva estava onde construíram o espaço do cemitério.

Quando em 1986 comecei a investigação para a tese doutoral, apareceram-me alguns documentos sobre Brunhoso, mas nada que falasse sobre a igreja paroquial.

Mais tarde descobri uma Provisão da Rainha Dª Maria I, datada de 5 de Julho de 1783, na qual consta que "os moradores do lugar de Brunhoso me representaram terem feito as obras de que necessitava a capela mor da igreja de São Lourenço do dito lugar, pertencente à Comenda de Santa Maria a Velha de Mogadouro dessa Comarca (de Miranda) para cuja obra tinham pedido emprestado a algumas confrarias e que também necessitavam de um terno de damasco roxo e outro branco com seus pluviais, um missal e um cálice, pedindo-me fosse servida mandar-lhe satisfazer a importância que despenderam no retábulo e dourado da dita capela mor e fazer os ornamentos que requerem o que visto informações vossas por que consta terem feito a referida obra e ser avaliado o retábulo em oitenta mil reis a pintura e douramento em outros oitenta mil reis que tudo faz a quantia de cento e sessenta mil reis e que e a Comenda é obrigada a fazer para o que nada contribuiu a fábrica... "

Por esta Provisão, conhecendo nós a igreja de Brunhoso e faltando mesmo mais documentos, somos levados a concluir que o templo tem todas as características de uma obra nova e diferente de todas as igrejas do Concelho de Mogadouro e mesmo de toda a Terra de Miranda.

Somos ainda levados a afirmar que a igreja paroquial nunca foi construída noutro local porque o retábulo que hoje se encontra na capela mor foi realmente construído nos anos setenta ou princípios dos anos OITENTA do século XVIII, à custa das confrarias da igreja que, como diz a provisão citada, emprestaram dinheiro para a sua elaboração, bem assim como para o seu douramento.

Por outro lado, ainda, temos que ver que este retábulo do altar mor foi mesmo construído para esta capela mor, não se notando nele qualquer acrescento ou adaptação, mas vemos que é uma peça única e homogénea bem ao gosto rococó posterior aos anos sessenta do século XVIII. O retábulo deve ter sido construído e dourado no final da década de setenta -1778-79 ou nos primeiros anos da década de oitenta -1781-82. Não costumavam demorar muito as obras de entalhamento e douramento desde que elas fossem aprovadas pela Mesa da Consciência e Ordens.

O templo na sua forma arquitectónica forma um belíssimo conjunto de arte neoclássica com elementos escultóricos e arquitectónicos do estilo Rocócó.

De qualquer modo, as paredes seguem o plano rectilíneo tão usado nas nossas igrejas que marcam o uso e apego das nossas gentes e instituições eclesiásticas e até civis do Nordeste Transmontano daqueles tempos do século XVIII ao maneirismo e mesmo ao classicismo. A forma arquitectónica maneirista da Igreja Paroquial de Brunhoso só é quebrada pelos vãos das portas e janelas de autêntica traça rococó ou rocaille. Confirmamos este facto pela forma da porta principal que se abre no fundo da torre fachada (Figura 1). Poucas são as Igrejas do nosso Nordeste que apresentem esta forma de portada com frontão recurvado coroado por um ático em forma de chapéu, em uso a partir dos anos sessenta do século XVIII. O arquitecto teve a boa iniciativa de esculpir ou mandar esculpir, na dura pedra granítica, a grelha, símbolo iconográfico do martírio de S. Lourenço, patrono e orago da Igreja e da povoação de Brunhoso.

Outro conjunto rococó belíssimo é a janela da capela mor, aberta do lado sul da Igreja.

É um autêntico medalhão todo ele de formas curvas com os seus festões pendurados lateralmente e na parte inferior da repisa da janela, bem como as aletas ou volutas e a parte do dintel da mesma janela todo de formas recurvadas, tudo e bem ao gosto do estilo que confirma a homogeneidade arquitectónica do templo. Encontramos janelas semelhantes a esta no solar dos Pimentéis, em Castelo Branco (Figura 2).

Figura 1

É de salientar o contraste de sombra e luz que provocam estes vãos, dentro da brancura das paredes rectilíneas quer na parte das torres fachada quer na parte da parede sul do templo.

Não foge a este conjunto a porta lateral do lado sul com o seu dintel curvo, assim como a parte superior da torre sineira, na parte arquitectónica formada por duas meias aletas côncavas, sobre as quais assenta o coroamento da torre com os sinos também por si coroada por um frontão muito diluído, ornamentado lateralmente por dois pequenos pináculos com suas esferas, os quais por si servem de escabelo à belíssima e monolítica cruz barroca que coroa todo o conjunto.

Chamam-nos a atenção as artísticas "pirâmides " ou pináculos de traça finíssima que coroam os fortes cunhais laterais apilastrados de forma toscana, que na sua aparente singeleza aguentaram já tempestades e toda a espécie de intempéries que se abateram sobre elas, desde há mais de duzentos anos.

São também dignos de apreço os quatro pináculos que coroam os lados da capela mor e também os que coroam as pilastras da sacristia. Menos finos os da capela mor, mais finos os da sacristia, estes muito semelhantes aos da torres sineira, mas todos de traça rococó.

Todo o conjunto arquitectónico, formado pelo templo em si, pela sacristia e pelo compartimento de arrumos, forma um másculo e harmonioso conjunto de volumes justapostos de sabor nédio clássico.

No interior do templo são de salientar como peças de valor artístico os retábulos do altar mor e os dois retábulos laterais, muito especialmente o de São Sebastião. Este santo mártir tinha na povoação uma capela própria e a imagem que hoje se encontra na igreja é bem barroca e veio, com certeza, do antigo templo. É dos finais do século XVII ou princípios do século XVIII, de finíssima traça escultórica, da qual desconhecemos o autor (Figura 5).

Ainda no campo arquitectónico é digno de apreço o púlpito que em todo seu conjunto formado pela porta igual à da torre fachada, bem como a parte do balcão com sua talha bem ao gosto rocaille-rocócó e com sua mísula - estrado, apresenta um todo homogéneo que não quebra a homogeneidade do estilo de todo o templo.

O mesmo acontece com a porta da sacristia construída, já no ano de 1819, seguindo traça da portada da fachada. O facto de aparecer a data de 1819 na porta da sacristia leva-nos a crer que esta porta só foi construída nesta data, por falta de meios materiais. Esta porta está elaborada com finura e majestade quer no que respeita à parte arquitectónica, igual à porta da torre fachada, quer escultórica, com sua cartela cronológica e com o motivo que sobre a mesma está esculpido, bem como os festões laterais que pendem do frontão.

Ainda, no que toca a escultura, além das imagens de São Pedro e São Lourenço (Figura 4), orago da freguesia, é digna de relevo aquela ingénua imagem de Santa Ana com a Virgem, obra do princípio século XVI, uma autêntica preciosidade como peça de escultura antiga. É pena que não esteja

colocada num local mais artístico e mais conforme a beleza da imagem. O retábulo onde se encontra é uma boa peça de carpintaria, mas não é uma peça de talha (Figura 3).

Mas a peça de escultura de mais interesse pelo seu valor artístico e pelo período a que pertence, é sem dúvida o Cristo Crucificado que se pode ver na sacristia. É uma escultura de tipo alongado de anatomia elegante. Esta figura de Cristo morto mostra uma imagem doce da morte, a qual mais parece dormir tranquilamente do que demonstrar o horror do sofrimento. A forma do pano de pureza deste Cristo de Brunhoso é muito semelhante à do Cristo de Valbuena de Duero na Província de Valladolid, atribuído ao escultor Francisco de Giralte, o que indica os tipos de escultura da primeira metade do século XVI, mas o tipo de cabeça parece já do segundo terço do século XVI. Estaríamos assim frente a uma obra de influência espanhola, da segunda metade do mesmo século.

Voltando atrás ao campo do património arquitectónico, a povoação de Brunhoso possui duas capelas de boa arquitectura: a Capela de Santa Bárbara, edificada lá no cimo da povoação e a Capela de Nossa Senhora das Dores, edificada no fundo da mesma.

A Capela de Santa Bárbara foi edificada no local mais alto da povoação com uma intenção bem definida (Figura 6). A gente do Nordeste e muito especialmente a gente da Terra de Miranda, Mogadouro e Vimioso criou e mantém uma viva devoção a Santa Bárbara, advogada contra as trovoadas, desde tempos remotíssimos da Idade Média. Assim, em Brunhoso, não pode ser estranho o facto de se ter edificado este pequeno templo, no ponto mais alto da povoação, no século XVII, época, para mais, em que o clima, na nossa região, foi muito desfavorável, porque, em tempo de peste, fome e guerra, de trovoadas e maus anos agrícolas, a intercessão de Santa Bárbara era fundamental e no alto da povoação, a capelinha, com a sua padroeira dentro, passou a funcionar como acrópole e baluarte contra trovoadas e tempestades. Está ali como autêntico pára-raios.

No campo arquitectónico é um templo de forma basilical com um másculo arco triunfal. Exteriormente apresenta-se com uma planta rectilínea maneirista, sem nada de especial no campo da arte.

A imagem de Santa Bárbara é já da segunda metade do século XVIII e podemos atribui-Ia ao escultor Jerónimo Caetano Fortuna, natural de Castelo Branco, o qual tem mais esculturas semelhantes a esta, no mesmo período. A imagem é de traça ainda barroca.

Na mesma capela e, sustentando a imagem de Santa Bárbara e a de São Brás, há um retábulo que datamos do terceiro período Joanino, isto é posterior a 1745. O tipo de colunas salomónicas que fazem parte da estrutura do retábulo aparecem, mesmo, nos finais do século XVIII.

A Capela de Nossa Senhora das Dores está, no fundo da povoação, "esmagada" pelas casas. É do mesmo período da Capela de Santa Bárbara e foi construída, como outras, por devoção e necessidade que as pessoas sentiram, em tempos de doença, de dor e sofrimento (Figura 7).

Figura 7

No que diz respeito ao património de artes menores, Brunhoso possui no acervo religioso da sua Igreja Paroquial um belíssimo turíbulo de prata, do princípio do século XVIII, um rico cálice, de prata, mandado fazer, em Braga, por Provisão, acima citada, da Rainha Dª Maria I, na qual consta "a necessidade dos ornamentos e haver a dita fabrica a quantia líquida de catorze mil reis e resposta do Procurador Geral das Ordens: Hey por bem mandeis pagar aos ditos moradores pelo rendimento da Comenda a despesa que fez do retábulo e douradura da capela mor. E outrosim mandeis fazer os ORNAMENTOS e alfayas; bem entendido que estes primeiramente serão pagos pelo dinheiro da Fábrica ainda que seja limitada a quantia e o restante pelo rendimento da Comenda o que assim cumprireis ".

A ordem desta Provisão foi cumprida e no dia 3 de Setembro do ano de 1783: foram pagos aos moradores de Brunhoso as despesas do entalhamento e douramento do retábulo do altar mor.

"Foram testemunhas desta entrega o Reverendo Filipe Martins, cura do mesmo lugar e o Pe Vitoriano Calejo”, da vila de Mogadouro.

Em 22 de Abril de 1784, o mesmo Pe Filipe Martins, pároco de Brunhoso, afirma que veio uma Provisão para compra de "hum cális e de um missal que a Senhora DRaynha deu ordem para se comprar”.

Custou o cálice a quantia total de 26.290 reis.

Assim fala o documento:

 

Despesas do Cálice:

"Para o calis todo de prata três marcos oitava e meia que comporta 19.350 reis

De feitio dele-6.000 reis; Dourado por dentro -700 reis; De sagrar-240 reis;

Francisco José Alves: Cestinha em que veio 30 reis; Carreto do calis 300 reis;

Missal- custo e carreto dele -4.600 reis soma total do missal. - 4.930 reis

Soma do calis supra - 26.290 reis

Soma total das duas peças - 31.220 reis.

Abade Antonio José Pimentel

 

Antes dos dois documentos acima citados consta o seguinte, no documento em causa:

"Diz o juis da Igreja, do lugar de Brunhoso e mais povo que elles suplicantes alcançaraõ Provisão de Sua Majestade para poderem mandar fazer hum calis, comprar hum missal 'a conta da Comenda do mesmo lugar (de Santa Maria a Velha de Castelo Branco). Como tudo já está na Igreja e do rol junto se mostra gastarem 31.220 querem que V.sa Mercê lhe mande passar portaria para que o rendeiro da Comenda lhe pague a quantia declarada

Pedem a V.sa M.cê S.or Dr Provedor seja servido mandar-lha passar

E R (eceberá M( ercê)

 

No dia 23 de Abril de 1784, Manuel Inácio de Morais, Escrivão da Provedoria de Miranda, atesta, na vila de Mogadouro, que a Provisão acima citada foi recebida pelo juiz da Igreja de Brunhoso que na ocasião era João Martins.

Resta ainda dizer que em Brunhoso havia a capela do Santíssimo Sacramento que tinha anexa uma confraria, na qual estavam inscritos todos os habitantes da povoação. Em testamentos do século XVIII encontramos este testemunho, assim como nos LIVROS DE VISITAS E CAPÍTULOS de Brunhoso de 1630 a 1693. Esta capela desapareceu, porque entrou em ruína e com a reconstrução da Igreja Paroquial deixou de ter uso.

Cremos que a Capela do Santíssimo Sacramento estava no local onde construíram o cemitério.

Há documentos que falam das Tulhas do pão reconstruídas pelo mestre canteiro João de Morais, da vila de Izeda que no ano de 1796 arrematou sete tulhas do Concelho de Mogadouro pela quantia de 239.000 reis e pelo mestre carpinteiro António José Pacheco, da bem próxima povoação de Remondes, o qual também arrematou a obra de reconstrução, das mesmas sete tulhas, no que toca a carpintaria, pela quantia de 130.000 reis.

Muito mais teríamos a dizer, mas, neste momento, não há espaço para mais.

A história das tulhas ficará para outra vez, se Deus nos der vida e saúde.

Fica este breve apontamento para que a gente de Brunhoso conheça um pouco da história das obras que falam do zelo religioso e do brio que nelas deixaram, bem expresso, os seus antepassados. Por isso, fazemos um apelo aos habitantes desta povoação para que estimem e promovam o seu Património Cultural e não esqueçam todos aqueles que contribuíram para a sua edificação.

António Rodrigues Mourinho

Miranda do Douro, Novembro de 2005

 

 20.01.2008

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