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Dantes era assim...
Brunhoso em 1908
Origem do nome Brunhoso
Brunhoso, os tempos, a terra e as gentes

E depois há os sítios. Os lugares. E não há sítios nem lugares sem pessoas. Sem pessoas seriam ermos.
São as gentes que os humanizam. E é aí que as pessoas se enraízam, numa interacção intensa e continua, acrescentando sempre menos que que aquilo que recebem.
Hei-de falar de outros, mas hoje deixo aqui algumas notas sobre o BALCÃO.

 

 

 

Ali logo na esquina a casa do Ti Pinheiro. Soto de secos e molhados, botequim das tertúlias e posto do Correio.

- Oh senhor José Maria a minha mãe mandou-me perguntar se temos correio?

Por lá aparecem ao fim da tarde o ti Alfredo Neto, o Senhor João Lagoa, e até o Padre Zé. Por aqui cavaqueiam o ti Calçada, o ti Deldino, o ti Ché, o ti Francisco Carvalho, o ti Manuel Caseiro, o ti Zé Manuel Chantre, e aparece de quando em vez o Ti José Manuel Azevedo a contar uma conta – Sabes! Numa ocasião...!

De fronte, imponente a casada Senhora D. Adelaide. Obra dos Moredos com cantaria de Vila d’Ala. Depois é aqui que começa a rua da Malhada. Vê-se lá em baixo a Capela da Senhora das Dores e avista-se ainda a casa do Senhor Manuel Vitorino na rua que dá para as Eiras de Baixo.

Aqui, debaixo da varanda do Ti Heleno, à abrigada, nas tardes de domingo, depois do jantar da matança, exibem-se os queixos rosados, arrota-se ao guisado da barbada e dizem-se enormidades quanto ao peso do unto.

O Balcão é rua e é praça. É rua de poucas casas e praça de uma bica só. E ao lado da bica a casa do Senhor Antoninho. Mas é ao Balcão que vão as moças à fonte. E muitas vezes não é pela água. Ou então porque será o olhar maroto e o sorriso daqueles rapazolas quando passou a Maria e a Joana com os cantaros de barro ao quadril?! E o requebro de anca das moçoilas será assim tão inocente?!

Sendo praça, o Balcão é maior que a praça Trindade Coelho, muito maior que o Rossio, que S. Marcos, ou mesmo a Plaza Mayor. É um rossio sim, mas que não cabe em qualquer betesga.

É ao Balcão que chegam os rapazes quando tiram as sortes e é pelo Balcão que se regressa da guerra do Ultramar.

É pelo Balcão que entram os peliqueiros com as mulas carregadas de peles, cornichoulos e moscas. E entra o vento do Prado.

O Balcão é um tempo. Onde o Guilhermino montou açougue. Há-de mais tarde ter taberna. Do ti Martinho França. E café da Tia Marquinhas.

É daqui que se abala para o Brasil e para África.

E é um templo. Ao ócio, ao passado, à partida e ao regresso. À ruralidade e ao progresso.

Ajusta-se o preço do quintal da cortiça, pergunta-se a como corre a arroba da amêndoa, ou a como pagam o azeite.

Contrata-se a jeira e combina-se a torna-jeira. E chegado o tempo de regar, marcam os consortes a limpeza das poças e dividem a água.

Celebram-se os afilhós das colheitas, bate-se o saricoté e baila de mão em mão a remeia de vinho.
É no Balcão que o ti Meão ensaia a morte do Entrudo, carregando o rei mono em carro puxado por meia dúzia de juntas de burras.

O Balcão é um modo.

De ser emancipado - já vai para o Balcão, o merdas! Vejam lá!

De ser marialva. De homens e rapazio, onde a mulher se não demora. Passa sem se deter, enche o cantaro e volta com o pudico olhar na calçada.

De estar aos domingos de barba feita e camisa lavada. É um modo de ficar e de partir.

E é daqui que ainda hoje seguem os postais.

Francisco Ribeiro
11-03-2007

 

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