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Naquele tempo eram itinerantes típicos de Brunhoso, tais como tecelões, latoeiros e até triteiros. Já não sou é do tempo dos almocreves. Vinham com a tenda carregada em belos machos, oriundos de Campo de Víboras, o povo chamava-les camponeses e dizia que eram judeus.

Famoso foi o ti’ Derranga. Tinha uma cadelinha muito brava – a "Mil e Um". Certo dia, ainda bem cedinho, vinha fazer o negócio e logo ao chegar à Cruz a cadela atacou um perdigueiro do Sr. Júlio Gonçalves e matou-lo. Pacífico e boa pessoa o Sr. Júlio perdoou-lhe mas mandou-o ir para o povo a gritar:"morra mil e um". Lá foi o Derranga gritando:

- Morra mil e um, morra mil e um, morra mil e um...

Ainda nem sequer tinha entrado no povo e logo ali à Urreta deparou-se com o Sr. Horácio, pastor de uma carneirada do Sr. João Lagoa, a quem morriam sem se saber porquê canhonos velhos e novos. Ao ouvir gritar o Derranga o pastor ralhou-le:

- Ou lá, ó Sr. Num me diga isso, carai. Se quer gritar grite mas é "Ouxalá que num morra nium".

E o Derranga lá entrou no povo aos gritos:

- Ouxalá que num morra nium, Ouxalá que num morra nium, Ouxalá que num morra nium...

Mal chegou ali à frente da curralada do Sr. Martinho Aragão estava o Sr. Alfredo Neto a matar um porco ao Sr. Antoninho Felgueiras. Pândego e bem disposto o Sr. Alfredo berrou, cheio de risa, para o Derranga:

- Ó home de Deus, mude a gaita e bote-le mas é: - com saúde o comam marido e mulher.

Meu dito, meu feito e o Derranga:

- Com saúde o comam marido e mulher, com saúde o comam marido e mulher, com saúde o comam marido e mulher...

Desceu ali por aquela canelha que ainda lá está e num dos quintais ao lado donde está o bebedouro, que era da minha madrinha (Srª Marquinhas Ruela), atrás duma parede estava o Sr. Tibério a arrear o calhau. Ofendido, atira-lhe com a sua típica voz fininha:

- Ah, seu lafrau, o que Vocemecê deve gritar é: - as pitas o ranhem e os porcos o focem.

Lá seguiu o Derranga...

- As pitas o ranhem e os porcos o focem, as pitas o ranhem e os porcos o focem, as pitas o ranhem e os porcos o focem...

Logo ali ao lado, no Pereiro, estava um moço do Sr. Antoninho Acácio, o Chico Césaro, a fazer uma sementeira de milho painço. Calculem lá como o rapaz não ficou! Cada vez mais desesperado o ti’Derranga:

- Já num sei o q’ hei-de dezer.

- Bô! olhe, diga "ouxalá c’arrebente todo".

E o Derranga aos gritos:

- Ouxalá c’arrebente todo, ouxalá c’arrebente todo, ouxalá c’arrebente todo...

Virou p’rós lados do Fundão. À frente da taberna da Srª Maria Cecília estavam uns homens a descarregar um pipo de vinho que, com um estremeção, tinha arrombado uma greta por onde estava a esvaziar.

- Ó home, já s’arramou c’abonde, agora grite mas é - ouxalá que num saia nium.

E a gritar "ouxalá que num saia nium","ouxalá que num saia nium", "ouxalá que num saia nium" passou frente ao adro onde estava o Sr. Martinho Capador a capar um berrão à Srª Maria do Anjo. Engraçado e brincalão como era o Sr. Martinho, às gargalhadas, mandou-o gritar "ouxalá que saiam os dois". E o Derranga obedecendo:

- Ouxalá que saiam os dois, ouxalá que saiam os dois, ouxalá que saiam os dois...

Já mais que desorientado chega às Eiras de Cima onde enfrenta o ti’ Sidré a correr atrás de um dos dois porcos que lhe tinha fugido pela tampa do cortelho. Como não era para brincadeiras gritou-lhe:

- Vá p’ró rai que o parta mas é a gritar "ouxalá que não saia p’la tampa".

Em fim de desespero o Derranga entra ali ao lado no Cemitério com as forças que lhe restavam:

- Ouxalá que não saia p’la tampa, ouxalá que não saia p’la tampa, "ouxalá que não saia p’la tampa...

Tinha o sr. Bicha d’Azeite acabado de meter na cova um caixão. Levanta a cabeça, olham por instantes um para o outro, dão ambos uma gargalhada e abraçam-se.

"E ainda estão assim" - concluía muito a sério a minha avó Luísa – A Srª Luísa Carpinteira – que, com aquela argúcia de analfabeta me contou esta conta “verdadeira” (porque para mim naquela idade a verdade era a fantasia) faz hoje precisamente 65 anos 2 meses e 3 dias. Foi a sua conclusão que incutiu em mim um misto de respeito-mistério pelo cemitério de Brunhoso, que perdura.

Agora digam lá que os nossos antigos não tinham imaginação...

Escrito no fórum por: FCarvalho
a 31-03-2006

 

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